Monday, 20 July 2015

Carta de um leitor ao blogue para o público | Pedro Chagas Freitas



NOTA: Embora partilhe de 99% da opinião, este texto não foi escrito por mim, aliás foi-me enviado através de fonte anónima para publicação. Já sabia que o PCF era uma embuste e que as frases de elogios na capa eram feitas por ele... Mas nunca pensei que descessem ao nível de alterarem artigos para auto-promoção. Parabéns Chagas, mais uma vez you hit very low!
O autor da mensagem pediu para se manter anónimo, pedido que acedi.
 

Portugal – o país onde tudo o que reluz é ouro

Porque Portugal é tanto o país da esperança quanto da exasperação, assistimos à primeira grande exportação de uma figura para o estrangeiro, a seguir ao Tony Carreira, que consideramos de primeira qualidade. Estou a falar, claro, de Pedro Chagas Freitas.
A crítica literária mantém-se silenciosa (não costumam avaliar livros de auto-ajuda):
“Há-de haver quem adore o que escreves. Há-de haver quem odeie. Habitua-te.”
“Certezas nunca terás (…) Habitua-te.”
“É infinito tudo o que falhando nos faz melhores”. (Já agora, que quer isto dizer?)

Crítica Literária (ou a inexistência dela)

Até agora apenas registei comentários a este sucesso de vendas (nunca sucesso literário) na Sábado e no Público, mas em Itália, para ajudar a vender o livro, os elogios dão-se nestes termos:
“Pedro Chagas Freitas conquistou todos, livreiros, público e crítica literária” – procuram-se fontes que justifiquem a crítica literária, e também que analisem o seu sucesso junto do público.
Se pegarmos nas estatísticas dos leitores que se deram ao trabalho de classificar e comentar este livro, obtermos as seguintes percentagens:
Em 353 classificações (de 1 a 5 valores), os leitores não são unânimes:
37% são 5.
18% são 4.
16% são 3.
12% são 2.
14% são 1.
Destaca-se, na negativa, a opinião do leitor Paulo Mouta, que não poderia colocar a questão em melhores termos:
Lixo absoluto. Uma fraude e uma farsa literárias. Um hino à estupidificação e à morte da literatura enquanto arte no constante malabarismo oportunista de um negociante de letras a granel.
Verifica-se também que o mulherio, sobretudo senhoras facilmente impressionáveis e jovens que gostam de partilhar fotos com filtro no Facebook, são os principais (se não os únicos) atribuidores dos cinco valores, como também dos quatro.
Muitos leitores declaram-se ultrajados, sendo frequente encontrarmos a menção à ideia de que o livro se trataria de um romance quando, na realidade, é uma “coletânea de textos”, “repetitivos”, “lamechas”, “monótonos”, “contraditórios”.

Citando o Sábado:
As semelhanças entre Pedro Chagas Freitas e Miguel Torga ou Virginia Woolf talvez fiquem por aí [pela auto-publicação], ainda que a imodéstia do escritor sobre a sua obra possa eventualmente supor o contrário.
A editora italiana pegou no mesmo artigo, mas consideraram que esta frase ficava mais pomposa: “Pedro Chagas Freitas não falhou e tornou-se num caso de estudo”. Tornou-a nisto: “Pedro Chagas Freitas è un caso pazzesco, tutti lo dovrebbero studiare”. Isto traduz-se em: PCF é um caso de loucura, todos deveriam estudá-lo”. Num sentido elogioso.
Quanto ao elogio para a contracapa da VIP: “Tem leitores muito díspares, conquista até pessoas que não costumam ler muito...” foi simpaticamente traduzido para: “Lo leggono tutti, ma proprio tutti, conquista anche persone che di solito non leggono”, que se lê: “Todos o lêem, mas mesmo todos. Conquista até pessoas que, por hábito, não lêem”.

O livro tem recebido tão boas críticas que é necessário poli-las para continuar a vendê-lo…


Público:

VIP:

Vendas/números

Falando em números de vendas são 110 mil exemplares contabilizados há alguns dias. 26 edições. O motivo do sucesso? Além das evidentes parecenças com o Tony Carreira, que leva as mulheres a despirem-se do avental e a correrem para cumprimenta-lo nos bailaricos populares (onde quase sempre cobra bilhete, ao contrário doutros artistas), aqui temos um homem de cabelo grisalho, óculos, barba, uma postura de falsa modéstia, um olho para Guimarães e outro para as vendas, com um linguajar que procura sempre florear todas as suas impressões, de modo a que quem o segue tenha sempre uma citação sua a apontar no estado do Facebook. Os chavões que o acompanham para toda a parte fazem dele um produto de marketing com, na realidade, muito pouco a oferecer. Dos pelo menos dez livros que publicou todos tateiam, atabalhoados, os mesmos temas: o amor, Deus e o sexo. Nenhum destes é um tema que venda, certo? Quando o leitor que agora o segue estiver farto de lê-lo, de que falará? Porque um homem bem formado nunca pegará num livro seu sem ser para classificá-lo de “fraude literária”. Uma adolescente que lhe partilhe as citações na página de Facebook com cerca de 350 mil fãs não o seguirá se algum dia bater com a cabeça e decidir falar de política.
Estes números de venda impressionantes, que de certeza causam muitas gargalhadas a António Lobo Antunes (se é que este espírito superior jamais se deixaria incomodar pelo sucesso fácil e efémero deste escritor por encomenda), fizeram decerto as delícias deste homem que insiste em vender-se a si próprio, mais do que às suas “obras”, e da editora a quem saiu a sorte grande por ter decidido apostar num tema que nunca esgota. Atenção: o tema “amor” não esgota. As abordagens a ele, sim.
Uma pergunta pertinente: se este senhor produziu 150 obras, como é que isto é o melhor que lhe saiu? A Harper Lee bastou-lhe uma para se imortalizar.

Oportunismo certeiro – Queres casar comigo todos os dias, Bárbara?

Cerca de um ano e meio depois de despejar “Prometo Falhar” junto do público, este Pedro Nuno sofre uma nova convulsão intestinal e traz à luz este não menos melodramático “Queres casar comigo todos os dias, Bárbara”? A sinopse é o prenúncio de uma obra de brilhantismo inequívoco:
“Ela chegou, pousou a mala.
Ele, no sofá, olhou-a.
Sorriram.
Ela aproximou-se dele. Passou-lhe a mão pelo rosto.
Sorriram.
Ele abriu os braços, aconchegou-a como se aconchega a vida.
E viveram.”
Nada que uma criança de sete anos não conseguisse alinhavar no intervalo do lanche…
Se, em 320 páginas, isto é a melhor amostra de qualidade que conseguiram arrancar-lhe, chega a ser ridículo de tão hilariante…
Resta fazer figas para que os leitores sejam mais inteligentes à segunda volta. Agora nem o benefício da dúvida os desculpa…

 



Pedro Chagas Freitas: a marca, o hardselling, a imodéstia e o verdadeiro propósito

Ainda citando o “elogio” do Sábado:
[A imodéstia ] vê-se sobretudo no seu site oficial, que está repleto de elogios aos livros. Alguns exemplos: "Numa obra que é um gigantesco monumento, mistura frenética de poema e de thriller, Pedro Chagas Freitas visita os mais profundos calabouços da Humanidade…"; "Com uma escrita inovadora…"; "Desconcertante como todos os romances de Pedro Chagas Freitas…"; "Este é um conjunto de textos que vai continuar a não deixar ninguém indiferente…"; "Surpreende uma vez mais nesta criação absolutamente surpreendente…"; "Pedro Chagas Freitas ensina-o, no seu estilo irreverente e único, a olhar para o mundo de um ângulo completamente diferente…"; "Neste teatro filosófico, um género nunca visto, Pedro Chagas Freitas escreve um verdadeiro hino à racionalização…"; "Absolutamente imperdível. Para ler, reler, saborear. E viciar…"; "Um romance de cortar a respiração…"; ou "Perscrutante e arguto, Pedro Chagas Freitas tem feito história…"
Estes textos aparecem na contracapa dos livros, foram escritos pelo próprio autor e replicados na Internet. Pedro Chagas Freitas justifica--se: "Quis fazer um site muito pop, muito comercial, com muita cor, interacção. É aquela coisa do hardselling [venda agressiva]. Temos de venderE uma marca vende-se assim. Tenho noção de que se calhar isso pode passar uma imagem… É estranho, é complicado, admito que sim, é por isso que vou alterar isso."
Pergunto-me se Tolstoi se terá ido assim, a pensar que se calhar poderia ter sido mais agressivo nas vendas.



Aulas de escrita criativa, puzzles, formação

O próprio admite ter tido muitos ofícios antes de ser escritor: operário fabril e publicitário são apenas alguns deles. É a parte da formação que me parece vaga. Este homem que se acha um guru das vírgulas e da língua portuguesa – e que, com a imodéstia que lhe é tão característica, diz ser capaz de tirar qualquer alminha das sombras quanto à sua própria língua, e ainda torna-la “um grande escrevente” – diz que estudou linguística. Atenção: diz, porque não acredito. Gostaria, se algum dia tivesse oportunidade, de lhe dar uma olhadela ao currículo. Na minha ótica, este homem que é uma farsa literária dos pés à cabeça, vem referido ocasionalmente, na blogosfera, como Professor Universitário aqui e ali, de modo um tanto vago. Formação superior não é requisito para escrever nem dar aulas, basta que a pessoa seja segura de si, porém pergunto-me se PCF, este génio da Linguística e da nossa língua, terá entrado para o quadro de honra com a sua brilhante média de 13 nas cadeiras que concluiu. Já agora, questiono-me se terá ao menos chegado ao fim da Licenciatura na Nova, na sua incursão por lá de 1999 a 2002, posto que nem existe certificado final em seu nome.
Imagino que a Bolsa Novos Criadores, que arrecadou em 2006, tenha servido para custear uma destas auto-publicações que agora as leitoras mais fiéis entendem como a pedra de roseta. Lá máquina de fazer dinheiro é ele…

A vergonha e a esperança

E pensar que é isto que o meu país tem para exportar, em termos de literatura. Que, quando pesquisei no site da Feltrinelli para oferecer “Os Lusíadas” a um amigo italiano, o livro estava esgotado. Não existe edição com exemplares a venda.
É um embuste, pelo que terei de pedir desculpa aos meus amigos internacionais e instruí-los sobre o que é a verdadeira literatura portuguesa. Leiam Dulce Maria Cardoso, José Rentes de Carvalho, Carlos de Oliveira, Agustina Bessa-Luís! Leiam António Lobo Antunes, ou recuem no tempo e leiam os histerismos coesos de Camilo Castelo Branco, mas nunca este Pedro Nuno à la carte.
A minha esperança é que o mercado brasileiro, italiano e espanhol, onde me parece que o livro será lançado, lhe deem uma lição de humildade. Todavia, como consequência, a sanidade e noção de qualidade lusas podem tornar-se dúbias para sempre…

A verdadeira opinião que vale a pena ler:

Um leitor anónimo