Thursday, 30 June 2011

My job is killing me...

foto tirada por Leonor Ferrão do blog Relíquias Anónimas

Embora dar aulas seja bastante gratificante, ter de estudar para exames e trabalhar das 8.30 ás 18 horas deixa-me pouco tempo para escrever críticas. Comecei a ler "A donzela sagrada" e embora a "tertúlia" com a Leonor tenha sido importante para analisar a obra dita, não consigo ler o livro com atenção. Pego num lápis e meto-me a corrigir tudo. Erros de sintaxe, ortografia, frases sem sentido e isso atrasa muito a leitura.

Agora que nos aproximamos de Julho está na hora de a 3º edição da Nanozine ver a luz do dia. Os contos estão corrigidos, o ensaio também só falta mesmo tempo para construir um design interior sólido. Se somarmos a minha falta de paciência, uma crítica a um livro tenho medo de ficar demasiado rabujenta e picky. Não quero ser injusta com ninguém e preciso de tempo, coisa que até dia 8 de Julho (dia em que realizo o ultimo exame) não vou ter. Não sei se farei alguns posts relativos às perguntas/ desafios que por aí circulam. Não sei se isso será sequer importante para manter o blog vivo, não sei se manter o blog vivo é sequer importante. De qualquer maneira sobrevivo, mal ou bem, a ler muita coisa (tanto para mestrado como extra) e resta pouco tempo para sentar e escrever sobre as leituras.


Saturday, 25 June 2011

"If you're a strong female, you don't need permission"

O Regresso dos Deuses: Rebelião
Pedro Ventura
Páginas: 392
Editora: Presença
Colecção: Via Láctea

Há leituras que podem vir em tempos bastante ingratos, há outras que comparando com outros livros até podem ser surpresas agradáveis. Depois de Le Guin, li mais dois livro da Karen Moning para desligar o cérebro e voltá-lo a activá-lo quando pegasse no próximo livro. Penso que se não o tivesse feito, o desgraçado do livro “Rebelião” (vamos chamar assim que o original é maior) sofreria críticas mais cruéis. Primeiro deixem-me literalmente explodir de alegria por ver finalmente um livro de Fantasia com um a personagem, que para a maioria das pessoas deve ser detestável.

Para mim, é com agrado que vejo uma mulher, escrita pela mão de um homem, a conseguir um balanço muito bom entre a guerra e a arte de matar, aliado à personalidade marcante. Pedro Ventura construiu Rebelião à imagem e semelhança de Cáledra. Tudo foca na sua pessoa, e sem ela o livro termina. Esta importância resulta tanto num afastamento por parte do leitor que poderá não simpatizar com a personagem principal, como pode devorar as páginas completamente enamorado da sua frescura.

Ao longo do livro deparei-me com uma questão “Se retirarmos Cáledra, o que resta do livro?”. Existem várias raças/ povos, bastantes discussões políticas provavelmente exploradas nos dois livros anteriores. Contudo e devido à dificuldade de acesso penso que o leitor sofre de uma falta de background história e sobretudo racial importante. Imaginar um dhorian ou um audhorians. O que me leva a outro problema – os nomes que para ler parece que estamos a invocar o demónio. Eu sei que a Fantasia implica por vezes nomes esquisitos, e não é a mesma coisa ler um Artur a dizer “Irei esventrar-te”, ou um tipo chamado Ghaleas (não sei se este nome apareceu no livro, só memorizei quatro nomes). Existem tantos nomes esquisitos em Portugal, principalmente nas aldeias, que acho engraçado estarmos por vezes a recuperar essas origens mais obscuras, do que ir buscar a outro sítio. Outro acontecimento curioso foi o facto de muitos dos aliados da Portadora da Luz aliarem-se a ela devido a visões. Se muitos desconfiavam da sua Capitã e até a chamavam de louca, achei engraçado que muitos só se juntavam porque tinham tido visões.

O problema de Rebelião será também a descendência do livro anterior. Supostamente alguém tenta matar Calédra, mas quem? Embora esta pergunta seja quase o ponto de partida do livro a meio a história sofre tanta volta e rumo próprio, que a Portadora da Luz nem quer saber quem a matou. Quando a trama começa a adensar, a personalidade de Calédra afrouxa e o único romance que há no livro é pobre. Curiosamente tive a mesma sensação ao ler “A game of thrones” onde a parte afectiva não era explorada. Quando assisti à apresentação do livro, este aspecto já tinha sido tratado e estava consciente que não haveria romance, contudo o par que se forma é tratado com demasiada brevidade. Uma pessoa quando lê um livro precisa também de sentir algo, não apenas amor/ódio pela personagem principal.

O erro e a virtude de Rebelião está em Calédra.

O autor merece de igual “kudos” não só por ter usado poucas descrições, como também por não ter feito Infodump à bruta. Muita informação a própria Calédra descobria nos livros e é uma forma diferente de introduzir o passado sem ser através do narrador Todo-Poderoso. Vale a pena ler “Rebelião”, especialmente para aqueles que tiveram oportunidade de ler “As crónicas de Fealgar” e claro que o fim do livro grita por uma sequela. Poderá ser que no próximo as raças e histórias sejam mais desenvolvidas, visto que foi este o único ponto fraco.

título retirado da música "Scheiße" de Lady Gaga

Saturday, 11 June 2011

Nada do que eu possuo tem realmente valor...

The dispossessed
(An ambiguous Utopia)
Ursula Le Guin
Colecção SF Masterworks
Páginas 336

Em 1974 dá-se em Portugal a Revolução de Abril em 25 de Abril, em 1974 foi publicado “The dispossessed” por Ursula Le Guin, que ganhou um ano depois da sua publicação, o Prémio Nebula e o Hugo. Com todo o atrevimento julgo que a obra apresenta-se como Ficção Científica, sem que o leitor note que está a ler FC com todos os clichés tradicionais de lulas com capacetes espaciais.

“The dispossessed” é real, podia ser real... se mudássemos alguns nomes seria bastante real. Embora o título já refira alguma densidade quando refere “an ambiguous utopia”, o leitor, na sua posição frágil, é levado pelos olhos de Shevek por dois mundos ambíguos e divergentes. Anarres e Urras são os dois planetas, que se diferenciam na política, economia e sociedade. Anarres, casa dos despojados, mergulhada na anarquia, que valoriza claramente a cooperação e a comunidade. Apesar de tudo o planeta de Shevek é feio, deserto e o povo luta para sobreviver mais um dia. Por outro lado Urras é um planeta belo, fértil onde persiste um regime repressivo, onde tudo é controlado pelo Estado. A sociedade de Urras é claramente capitalista, rica e que por isso o povo não chega ao sofrimento dos de Anarres.

A história é desenrolada através dos pensamentos, memórias e acontecimentos de Shevek, um cientista brilhante, que sofre nas mãos destes dois planetas: a sua casa está claramente desinteressada no seu trabalho e o governo de Urras só quer a sua fórmula para criar mais guerra e riqueza. A crítica tem referido a Guerra Fria como principal fonte de inspiração para a crítica nos dois mundos, contudo penso que sem esta ponte o livro continua actual e um objecto simples para a reflexão.

O que mais me fascinou foi, para variar, a maneira como Le Guin, uma mulher extremamente humana, consegue defender ideais feministas, sem cair no extremismo. Quando Shevek entra em contacto com Urras e observa a sua sociedade, não deixa de verificar que as mulheres são submissas, usam bastantes adornos e não trabalham. Isto causa estranheza em Shevek, devido ao facto de as mulheres em Anarres estudarem física e outras ciências e exercerem as mesmas profissões que os homens. Lembrem-se que nos anos 70 os Estudos Feministas e de Género estavam a entrar em ebulição e de facto Le Guin foi das principais autoras da Segunda Vaga feminista. O livro defende acima de tudo a igualdade de oportunidade de emprego tanto para homens como mulheres, o direito que as mulheres têm de não usarem adornos para ficarem “mais bonitas” para os homens, a homossexualidade/ bissexualidade deve ser aceite tal como a heterossexualidade e até mesmo o celibato e por fim também importante os homens devem participar no processo de crescimento dos filhos, já que tanto os homens como as mulheres têm capacidade para cuidar das crianças. Foram estes pontos que contribuíram para o reforço do fascínio que se criou, quando li “The left hand of darkness”.

O livro em Portugal encontra-se publicado pela Europa-América, dividido em dois volumes e já está na minha opinião a pedir por uma reedição de maior qualidade, porque de facto o livro merece estar nas prateleiras, acessível ao público geral.