Thursday, 30 September 2010

Prendas de aniversário

Apesar do meu aniversário ainda estar relativamente longe, recebi dos meus pais um vale da wook de 14€ e outro de 2€, por isso como prenda vou comprar dois livrinhos :) Um já está planeado a algum tempo:


Agora existe uma mão de livros que gostava de comprar, com algum receio de apostar. Vou meter uma poll no canto direito para poderem votar CONSOANTE a vossa opinião do livro.

Wednesday, 29 September 2010

A filha dos mundos

A filha dos mundos
Ceptro de Aezirs: livro I
Inês Botelho
Páginas: 240
Editora: Gailivro
Colecção: Jovens Talentos
Edição: 2004


Sinopse oficial: Ailura teve uma infância repleta de contos de fadas, elfos e duendes, de todo um mundo mágico e maravilhoso. Mas como todas as crianças ela cresceu e, lentamente, esqueceu esse mundo encantado, até que deixou de acreditar que a barreira que separa o noso mundo dos sonhos e do maravilhoso não é mais espessa que o próprio ar.

Deve ser a primeira vez que coloco aqui uma sinopse oficial, contudo após a leitura do livro, pequeno devo dizer, receei que estivesse a ser injusta para com a escritora Inês Botelho, por lhe ir descascar tanto, o que também não só poderá criar um mal geral, visto os portugueses não estarem muito habituados a lerem opiniões negativas. Normalmente é tudo uma questão de gosto e gosto porque sim e não gosto porque assado, no entanto quando um livro não reúne condições para efectivamente termos uma ideia positiva, a coisa está negra. Costumo dizer sempre o mesmo nas minhas críticas: o livro é engraçadito, lê-se bem, mas de suminho não tem nada. O problema da "Filha dos mundos" é este e muitos mais.

Magiquei durante algum tempo os motivos pelos diferentes fracassos, chegando à conclusão que a própria colecção "Jovens Talentos" deve ser a pior colecção de fantasia alguma vez a sair cá para fora. Desde o Paolini até ao Zuzarte (não estou a atacar os autores... tirando o Zuzarte, esse ataco, ferro e se possível ainda lhe dava uns tabefes), a qualidade dos textos parece-me que nem sequer foi revista. O editor leu os textos, pensou "muito bem, que lindo!" e não reveu NADA! Ou seja um trabalho, de jovens sair para o mercado livreiro, sem sequer ter uma revisão não se pode esperar grande coisa. A culpa não deve ser atribuída aos autores, que como tantos outros autores mandam os seus manuscritos à espera de serem aceites, mas da editora que leu e deve ter achado aquilo muito bonito. Em 2004 até podia ter sido, duvido, hoje em dia, ano 2010, não o é. Lamento profundamente, e penso que até a própria Inês se arrepende um pouco de ter envergado por um caminho, que nem era esse que queria seguir, que se calhar anteriormente nesta colecção saíram títulos, que nunca deviam de ter visto a luz do dia nas livrarias, enquanto hoje em dia se calhar a própria editora até poderá recusar-se a ler um manuscrito, que poderia ter mais qualidade que estes títulos.

Independentemente da decisão da Gailivro, penso e defendo que o livro "A filha dos mundos" deveria de ter estado na gaveta até hoje. Poderia com algumas alterações ser um livro bonito, com profundidade psicologica, mas que devido à sua rápida publicação será sempre lembrado como um livro "que poderia ter sido algo de bom". A acção decorre demasiado depressa, existe uma certa infantilidade em algumas descrições, nomeadamente na repetição do adjectivo "bonito" ou "belo": a Ailura é bela, o elfo é belo, mas dentro disso onde está a substância? A Ailura aparece como uma mulher de 28 anos, directora de um jornal, com responsabilidade, mas que por algum motivo não gosta do namorado e a presença deste torna-se algo desagradável. Tudo isso muda quando Ailura é atropelada por um camião e encontra um mundo paralelo ao nosso. Esta espécie de twist recorda um pouco o romance de Neil Gaiman "Neverwhere", onde a personagem principal também entra numa espécie de realidade alternativa, fruto da sua ânsia de se escapar do mundo real. E este twist apesar de já existir é o unico factor bom que o livro apresenta. O facto de todos nós gostarmos de um dia viver num mundo alternativo é uma premissa razoável para um romance fantasioso, apenas a maneira como usamos essa premissa deve ser tomada em consideração. As personagens falham, como referi e a acção peca pela rapidez, na qual é apresentada. Tudo é muito romântico, tudo decorre demasiado depressa: a Ailura tanto detesta o elfo, como no momento a seguir já o ama e beijam-se e querem filhinhos. Ou seja, se a Inês Botelho tivesse esperado mais uns tempinhos, poderia de facto ter apresentado algo mais substancial, talvez introduzir algo mais sobre o povo élfico, os anões. Como seria o seu dia-a-dia, explicar com maior detalhe como é que as pessoas se relacionavam, o próprio passado, a História daquele povo, etc.

Muito sucintamente "A filha dos mundos" estará sempre ligado a um condicional e é a prova viva que nem sempre devemos enviar algo que de futuro até nos poderemos "envergonhar". Erros todos nós cometemos. Não nascemos todos uns Saramagos, mas lá vamos evoluindo com o tempo, vamos crescer, ter novas experiências, que vão reflectir-se no que escrevemos. É um livro que pode apelar as pessoas que só querem ler uma história leve, mas que não satisfará o leitor mais experiente.

Saturday, 18 September 2010

O ano da morte de Ricardo Reis

O ano da morte de Ricardo Reis
José Saramago
Editora: Caminho
Páginas: 408
Colecção: Obras de Saramago

Não sendo propriamente uma estreante na prosa de Saramago, afirmo firmemente que “O ano da morte de Ricardo Reis” é um dos melhores livros que já tive o prazer de ler. Saramago não desilude perante a árdua tarefa de dar vida a uma criação do supra-Camões: Fernando Pessoa. È preciso separar a fantasia da realidade, pegar na personagem e misturar através de sítios e outras marcas de realidade, uma história coesa. Se a narrativa fosse somente coesa, duvidaria que se trataria de um Saramago, por isso sem querer adiar as provas da sua genialidade a primeira frase do romance “aqui acaba o mar e a terra principia”, alusão ao canto terceiro, estrofe vigésima da epopeia “Os Lusíadas”:


"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.”

A primeira frase do romance aliada ao título resulta numa das primeiras dúvidas para descortinar mais sobre a personagem de Ricardo Reis. Se o título aponta para a morte não sabemos se é física ou apenas simbólica. De salientar que até a figura principal, ao contrário de Fernando Pessoa nunca existiu. Assim podemos primeiramente especular sobre os verbos “acabar” e “principiar” como uma metáfora da própria existência.

O ciclo da existência pressupõe sempre um início e um fim, nascimento e morte associada à imagem da água, símbolo da vida em contraste com a terra, que pode ser encarada como um sítio subterrâneo (Inferno). Se a morte de Ricardo Reis fora somente espiritual e simbólica, podemos aliar os dois elementos: mar (travessia para o além) e terra - Europa (Inferno). A chuva e o mau tempo que se fazem sentir durante a estadia de Ricardo Reis em Portugal é, de igual forma, um espelho do estado de uma Europa totalitarista. “Tem chovido muito, perguntou o passageiro, É um dilúvio, há dois meses que o céu anda a desfazer-se em agua, respondeu o motorista, e desligou o limpa-vidros.” (17) O Hotel Bragança é um ponto onde o tempo aparece ritmado, ao contrário do apartamento que Ricardo Reis aluga mais tarde. Temos a noção do tempo a passar através do relógio na sala, ao invés do apartamento, onde Ricardo Reis dorme até ao meio-dia e perde-se no tempo. O dia-a-dia no hotel contribui para a veracidade da ficção e é preciso separar a criação do criador através da visita ao cemitério.

O narrador brinca com a ficção e a realidade com o livro “The God of labyrinth” de Hebert Quin não é nada mais do que um conto de Jorge Luis Borges (e aqui temos um caso de um livro dentro de outro livro). Esta alusão a um “deus labiríntico” que no fundo de labirinto não tem nada tem basicamente a função de ajudar o leitor a situar-se na psicologia de Ricardo Reis e as suas questões. O labirinto (também típico de Kafka e Dürrenmatt) não é um labirinto físico mas sim espiritual. O tema da morte presente em bastantes obras de Saramago, consegue nestas páginas apresentar quatro mortes diferentes: morte física de Fernando Pessoa, a morte do braço de Marcenda, a morte espiritual de Ricardo Reis e por último a duvida se Lídia sempre realizará um aborto após a morte do pai da criança. Saramago pega na musa inspiradora de Ricardo Reis e dá-lhe vida num corpo de uma empregada de limpezas que trabalha no hotel Bragança. Ao contrário do amor existente em “Memorial do Convento” e “Evangelho segundo Jesus Cristo” Lídia e Ricardo Reis terão uma relação puramente sexual, esquecendo os poemas mais platónicos:

“Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)”

Nada na relação entre eles sugere esta pacatez de espírito, muito pelo contrário. Ricardo reis surge como um predador e Lídia com uma presa, na qual na sua qualidade de empregada não poderá resistir, sem ceder às vontades do “senhor doutor”. Curiosa a escolha de Saramago pela profissão de Lídia, uma mulher do povo, mas que sem querer consegue proferir opiniões de uma forma encantada. Assim Saramago consegue mostrar mais uma vez que o povo tem uma certa magia: “Fica sabendo, Lídia, que o povo nunca está de um lado só, além disso, faz-me o favor de me dizeres o que é o povo, O povo é isto que eu sou, uma criada de servir que tem um irmão revolucionário e se deita com um senhor doutor contrário às revoluções.”(375) Apesar de ter um irmão revolucionário, Lídia várias vezes prefere simplesmente revelar a sua ignorância através da desculpa da sua pobre escolaridade, o que torna o romance entre os dois ainda mais apetecível. Ricardo Reis, o grande poeta, um sr. Doutor, deitado na sua cama com uma criada quase analfabeta. Talvez por isso Saramago achou por bem criar uma outra personagem: Marcenda, mais ao gosto do próprio Ricardo Reis.

Marcenda representa um desafio à profissão do doutor, com um braço paralisado e sem cura possível. Ambos parecem viver em função daquele braço paralisado: Marcenda desespera com a demora da cura e Ricardo Reis tenta encontrar a cura através da psicologia. “A esta mesma hora, naquele segundo andar da Rua de Santa Catarina, Ricardo Reis tenta escrever um poema a Marcenda, para que amanhã não se diga que Marcenda passou em vão, Saudoso já deste verão que vejo, lágrimas para as flores dele emprego na lembrança invertida de quando hei-de perdê-las, esta ficará sendo a primeira parte da ode, até aqui ninguém adivinharia de que Marcenda se vai falar, embora se saiba que muitas vezes começamos a falar de horizonte porque é o mais curto caminho para chegar ao coração.” O poema “Saudoso Verão que vejo” demonstra como ambas: Lídia e Marcenda ocupam um espaço importante na poesia do heterónimo. Ao contrário de Lídia a relação entre Marcenda e Ricardo Reis é mais platónico.

"Marcenda herself, too, is physically imperfect, with a withered arm that leaves her effectively one-handed, like Baltasar; and she hails from Coimbra, the city of the priest Bartolomeu Gusmão. Lídia, the barely literate hotel chambermaid, recalls the illiterate Blimunda in her poised yet daring vivacity. At certain moments in the text, the narrator recalls other elements from Memorial do Convento: the convent of Mafra (p. 401), the flying machine of the inventor-priest (p. 670). “Literature as History: José Saramago's O Ano da Morte de Ricardo Reis”, Chris Rollason

Saramago prova que mesmo uma mulher de alta classe terá os problemas de uma pessoa do povo.

Em suma, “O ano da morte de Ricardo Reis” é um livro onde o génio de Saramago pode ser confirmado através das intertextualidades cuidadosamente expostas e dos locais reais de Lisboa, onde o leitor pode seguir Ricardo Reis como se estivesse a seu lado. As marcas de realidade: jornais e os locais ajudam à exactidão da prosa. Não é um livro fácil de ler, bastante denso e metafórico o leitor conclui a leitura com tristeza, com uma ânsia de querer mais, no entanto não há nada mais real que a morte e a certeza de que todos vamos morrer um dia.

Friday, 17 September 2010

Revista Conto Fantástico

Revista Conto Fantástico

Organização: Roberto Mendes


A revista “Conto Fantástico” é o segundo projecto de Roberto Mendes a ganhar vida no mercado editorial, depois da revista de fantasia “Dagon”.

A revista poderá ser adquirida em qualquer FNAC (se não houver disponível podem sempre encomendar) e já conta com dois números. O objectivo da revista é dar a conhecer somente novos autores portugueses, no âmbito da fc, quando sabemos que a FC portuguesa anda pelas ruas da amargura. Não sou nenhuma especialista em ficção científica, pelo que não haverá nenhuma crítica aprofundada.

Considero que os contos que mais me encheram as medidas foram sem dúvida “Space Oddity” de Regina Catarino e “Aleninan” de Marcelina Gama. “Space Oddity” é um conto pequeno, que provavelmente alguns poderão considerar pequeno de mais, mas não é na quantidade de palavras que se mede a qualidade. O narrador autodiegético ajuda a criar uma ligação com o leitor, ao contrário de todos os outros contos que decidem seguir uma prosa com um narrador heterodiegético, criando uma espécie de barreira. Space Oddity é o nome de um single e um album do cantor David Bowie. As marcas de intertextualidade são subtis, Regina Catarino parte da premissa de Bowie:

Though I'm past one hundred thousand miles
I'm feeling very still
And I think my spaceship knows which way to go
Tell me wife I love her very much

Mas no fim consegue dar um outro significado à ideia original de Bowie. Não sabemos o que leva o astronauta a viajar pelo espaço na canção, mas no conto “Space Oddity” dá uma ideia de suicídio: “A nave é velha, reparada à ultima da hora”, a personagem sabe que a nave tem problemas, contudo arrisca e viaja até ao espaço. É sobretudo uma viagem que tanto pode correr bem como mal. Um conto muito bom, cujo fim deixa um sabor especial na boca.

“Aleninan” o último conto da revista, escrito por Marcelina Gama pode ser lido quase em paralelo com o conto de Pedro Pedroso “Cometas Extintos”. Embora pense que Aleninan seja mais de um alinha “The host” de S. Meyer (com um domínio de língua completamente diferente). Ambos os contos conseguem no fim criar suspense através da tortura . O fim é deixado em aberto de propósito, segundo a autora “pode ser para continuar” e assim sendo poderá dar origem a algo maior e aprofundado. As bases e o suspense estão lançados, resta só ao leitor guardar este pedacinho para talvez mais tarde.

Thalormis Zeta marca uma evolução positiva na escrita de Carla Ribeiro. Longe do “purple prose” e das frases intermináveis, Carla Ribeiro consegue pela primeira vez provar que consegue fazer algo diferente. A escrita simples e directa, as personagens que não são catalogadas directamente como nem boas, nem más, faz com que o leitor leia o conto sem ter noção que está a ler algo cliché. Penso que Carla Ribeiro devia de se dedicar mais a FC e deixar a escrita pseudo-gótica para trás. Assim dá gosto ler algo!

Por ultimo falta-nos “Cometas Extintos” de Pedro Pedroso, uma distopia, que de alguma maneira fez-me lembrar os videojogos, mas que através do narrador heterodiegetico não consegue criar drama suficiente para sentirmos empatia. Pedro Pedroso contribuiu igualmente para o número 3 e 4 da revista “Conto Fantástico”.

Falta infelizmente o conto de João Rogaciano, que me foi impossível de ler, devido à minha ignorância perante a série “Star Trek”, mesmo assim gostaria de ler o conto que publicou na Antologia da Edita-me, antologia na qual eu, Marcelina Gama e Carla Ribeiro participamos.

Resta-me recomendar a crónica de Álvaro Holstein, uma retrospectiva da FC na época da Nebulosa e das máquinas de escrever, onde publicar era difícil ou quase impossível. Desde esse tempo até agora, tempo dos computadores, portáteis e da Internet, nada ou quase nada mudou. Indirectamente Álvaro Holstein demonstra a importância de apostar em novas vozes da FC através destes pequenos projectos, que no fundo são sempre melhor que nada.

Wednesday, 15 September 2010

Steampunk, Saramago e Facebook num só post

Bem já à algum tempo que estava à espera que o livro estivesse com uma promoçãozita e ontem quando fui ao Bookdepository vi que o preço do livro tinha finalmente descido. Não me contive e tive mesmo de comprar o livro da Cherrie Priest - Boneshaker :) Só espero que não seja uma desilusão como foi o "Leviathan".




Entretanto continuo a estudar o livro do Saramago "O ano da morte de Ricardo Reis". Por mais palavras que eu escreva sinto sempre que podia explorar mais sobre os assuntos, especialmente a intertextualidade que é bastante rica.

Na sequência de uma duvida de uma amiga minha face à criação de grupos no Facebook, para experimentar tinha de criar um grupo e dar um website. Nada melhor do que experimentar com o blog e assim deu nesta asneira. Como sabem este blog não tem propriamente passatempos, nem livros recentes, nem bajulações a novos autores, no entanto tem algo em comum com outros leitores - o gosto pela leitura, seja desde a Ilíada até ao mais recente livro colocado nas editoras. Por isso é uma maneira de saberem o que se passa neste cantinho pequenino.

Wednesday, 8 September 2010

Coraline

Coraline e a Porta Secreta
Neil Gaiman
Páginas: 120
Tradução: Inês Aboim Borges
Colecção: Estrela do Mar
Editora: Editorial Presença



Neil Gaiman, you did it again. Não sei como ele o faz exactamente. Não sei se é o seu ar horripilantemente charmoso, que tem um certo quê de Tim Burton com feições britânicas, que nos levam a suspirar por cada palavra que escreve. Coraline é uma Alice in Wonderland gótica, que também se deixa levar pelos seus sonhos. Enquanto Coraline representa a alienação das crianças de hoje em dia e a solidão, Alice, com os seus tabus da época nada mais era do que uma metáfora do crescimento e da descoberta sexual. Sendo assim podemos considerar Coraline mais adequado para crianças ou jovens. Em ambas as histórias existe um gato, mas um fica famoso por ser de Cheshire e outro simplesmente se chama gato. O facto de o gato não ter nome atrai para si um sentimento maravilhoso de identidade. Nós somos todos únicos independentemente do nome que nos é atribuído. Quando Coraline é confundida por Caroline, não é o facto de ela não gostar que o nome seja trocado. Simplesmente ela é Coraline e não Caroline. Se a chamassem rapariga era fácil de a identificar. Caroline, por outro lado, implica um nome próprio que não lhe pertence.

A simplicidade das palavras de Gaiman conseguem atingir miúdos e graúdos, contudo há sempre algo de macabro nas histórias inventadas pelo autor. Em “The Graveyard Book” Nobody Owens cresce e vive a sua infância num cemitério, em “Neverwhere” a dupla Mr. Vandemar e Mr. Croup eram capazes de causar um medo na espinha, em “Coraline” a outra mãe é uma bruxa, com olhos de botão, cujo maior desejo é ficar com a filha para sempre. Para isso Coraline terá de se livrar dos seus olhos e cosê-los com dois botões. O mundo moderno é assim - as crianças precisam de uma dose certa de terror, com uma dose q.b. de literatura juvenil.

Um livro muito mais complexo do que se poderá pensar à primeira vista. Well done, mr. Gaiman.

Monday, 6 September 2010

Sputnik, meu amor

Sputknik, meu amor
Haruki Murakami
Colecção: Biblioteca Sábado
Páginas: 200
Tradutora: Maria João Lourenço


Existem sempre uma parcela de livros que apesar de não entendermos metade do que o autor quer dizer, sentimos que as páginas que lemos transportam algum valor. Com “Sputnik, meu amor” apesar de muitos leitores não entenderem tudo, reconhecem que não podem ficar indiferentes ao que leram. “Sputnik, meu amor” conta a história de Sumire (violeta em japonês), que ambiciona ser escritora e que encontra Miu, por acaso num casamento onde ambas entram em conflito por causa de um mal entendido. Miu confunde o movimento Sputnik com Beatnik, o que as leva a estabelecer desde cedo um elo, que só se irá quebrar quando Sumire desaparecer na ilha grega... ou não. Haruki Murakami apresenta um romance complexo, genial e que nos transporta até ao outro lado da realidade, um “outro lado” onde pairam as nossas paixões. Sumire quando conhece Miu e aceita o emprego, começa a mudar aos poucos até que deixa de escrever. Miu sofre um trauma quando tem vinte e cinco anos que a impede de ter desejo sexual por Sumire e por fim K. deixa de ser a pessoa que era devido ao desaparecimento do seu amor Sumire. Indirectamente Murakami consegue pegar nas personagens e atribuir-lhes uma espécie de ciclo que todos sofremos: a paixão pela escrita, pela música, ou por uma pessoa terá de ser substituída pela dura realidade. Sumire não ganhará dinheiro com os seus livros, Miu tem de gerir o negócio do pai e K. terá de viver a sua vida sem Sumire a telefonar-lhe a meio da noite. O nosso mundo é feito de pequenas tragédias quotidianas, de desistências de sonhos. “Sputnik, meu amor” lida com duas desistências: a primeira relacionada com a escrita e a segunda com a sua homossexualidade. Sumire terá de abdicar daquilo que é e sempre foi em prole da sua paixão por Miu, mas quando Miu revela não conseguir sentir qualquer deseja sexual, Sumire evapora-se. Se Miu sofreu um trauma (violação) que a fez mudar de uma mulher viva para uma concha vazia, quando Sumire se apercebe que não conseguirá alcançar o que quer com a mulher que ama, uma parte de si foge da realidade para um mundo onde Miu consegue ter algum desejo sexual.

“E assim prosseguimos com as nossas vidas, cada um para o seu lado. Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou - arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim em silêncio, estendendo a mão para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás.” (194)

Um livro tocante na sua complexidão.

Meses temáticos

Setembro: Clássicos recentes e passado
Sputnik, meu amor (H. Murakami)
Coraline e a porta-secreta (Neil Gaiman)
O ano da morte de Ricardo Reis (José Saramago)
From whom the bells tolls (E. Hemingway)


Outubro: Literatura portuguesa
O Evangelho do Enforcado: David Soares
A Estrela de Nariën: Susana Almeida
Ensaio sobre a cegueira: José Saramago
Cancioneiro geral Garcia Resende

Novembro: Ficção Científica
Dune: Frank Herbert
The Time Machine: H. G. Wells
Fahrenheit 451: Ray Bradbury
The left hand of darkness: Ursula Le Guin








Os únicos livros ainda a adquirir são Dune e Farenheit 451. O resto do mês de Novembro encontra-se na biblioteca da Faculdade de Letras da UP. Com o mestrado passarei a ler menos, o que não invalida a lista. O mês mais ambicioso será Novembro. Dune é um livro generoso e o tempo de trabalhos acabará por se esgotar.

Friday, 3 September 2010

Interview questions for bloggers

These questions were given by the author of the blog: Of the Fallen. You may see the article here http://ofblog.blogspot.com/2010/09/interview-questions-for-bloggers-and.html

1. Without giving anything away, what can you tell readers about your blog?

My blog was first conceived to post reviews of books, which have not yet seen Portuguese translations. There are still many good titles that have no place in our publishers, especially historical romance and science fiction.

2. What can you tell readers about your future themed review months? Are there any sequels in the works?

September will be mainly a Portuguese-themed month. Throughout the year I’ve read lots of books in English, yet I feel I keep reading good books, so I decided to take a risk and read new authors. October will be the Translated-literature month and hopefully November I will start dedicating myself to science fiction and steampunk.

3. What do you feel is your strength as a blogger/reviewer?

My reviews are never biased or based on my own opinion. I have a mental list full of points, which a book should match:
- Story;
- Narrator - more important than some people think;
- Grammar;
- Style of writing - too eloquent, or too sloppy;
- Themes, Symbols

If a book has a good story, a good point of view, is masterfully written and approaches solid symbols and themes I don’t see why I shouldn’t say wonders of it.

4. If you could go back in time, what advice would you give the younger you concerning your blogging/reviewing career?

Do not ONLY give your opinion. Just because you didn’t enjoy a book, it doesn’t mean a book has to be poorly rated. Through the Internet I’ve seen many people terribly reviewing grand titles. If you don’t feel a connection with the characters, it’s all right. Not every book is written to please you in particular. So search to write something broader and not only: “I didn’t like this book, because the main character irritated me.”

5. What was the spark that generated the idea that drove you to start your blog/reviewing career?

I won’t say reading is like breathing to me. I’ve learnt to enjoy reading in faculty and started to enjoy the process of dissecting a book. Also most people especially in Portugal review books only in Portuguese (translations, etc), which leaves a big slice of literature to be read or reviewed. Reviewing some anonymous books is something worthwhile and almost like a service to a future audience.

6. Were there any perceived conventions of blogging/reviewing that you wanted to twist or break when you set out to start blogging/reviewing?

Mainly the idea that a book you don’t enjoy, is not a poorly written book. I want to write reviews based on general lines instead of being personal. When I read “Love in the times of Cholera” personally I didn’t enjoy it. I saw a great book with magnificent characters, but I didn’t feel anything for it. Did I rate it as a bad book? Of course not. I admit I enjoyed reading “Hush, hush” by Becca Fitzpatrick, but literary is not a big deal, why should I rate it high, when I know it’s just a good light book?

7. In retrospect, is it safe to say that the online blogging/reviewing world wasn’t quite ready for your blog/review column? Blogging/reviewing was dominated by powerhouses such as Wil Wheaton, Dave Itzkoff, and Harriet Klausner at the time. Looking back, was your blog/review column too avante-garde in style and tone?

My blog is not famous, so I’m not worried with that part.

8. Many bloggers/reviewers don’t read within the blogging/reviewing field. Is it the case with you? If not, what bloggers/reviewers make you shake your head in admiration?

I read many blogs, it’s nice to see what other people think of some books I haven’t read yet.

9. Honestly, do you believe that bloggers/revieers will ever come to be recognized as veritable critics? Truth be told, in my opinion there has never been this many good blogs/online review columns as we have right now, and yet there is still very little respect (not to say none) associated with them.

If they do their job right, I don’t see why they shouldn’t earn some respect. If you treat your blog in a serious way, then you should earn some respect. If you do it as a hobby or as something you just do it personally it will depend.

10. How would you like to be remembered as a blogger/reviewer? What is the legacy you’ll leave behind?

I, sometimes, still enjoy reading some reviews I wrote some time ago, especially the “Wide Sargasso Sea” one. I want to write not only beautifully, but also straight to the point. If a book is bad, it is bad, yet if a book has some enchantment I feel I have to write properly.

11. Do you ever worry that your blog articles/reviews are being misinterpreted? Ever ball up your fists, shoot steam from your ears and yell, “But you just don’t get it!” while reading a comment to a review? Even if they don’t get it, is that opinion still wrong?

If other people don’t agree with my reviews, I’m fine with it. I didn’t’ say wonders about “Daughter of Blood” by Anne Bishop and someone said that she or he loved it and I perhaps didn’t get the book. Of course I answered quite politely and argued that, on a literary level “Daughter of blood” is a poor book. The characters are not as mean as they look like and it just looked like a prefatory. Yet if people search throughout the internet almost everyone enjoyed it. But enjoy is different of being a good book.

12. If you take a reviewer like Adam Roberts, as his ramble-y, engaging reviews of Robert Jordan’s The Wheel of Time series and put them up against some of the reviews found on Amazon.com, you’re going to find people who appreciate one or the other. Many of those reviews on Amazon.com are written by what we’re calling ‘bad readers’, but there’s certainly an audience (a very large audience), who appreciate those ‘you’ll love this book if you loved ‘Book X’ or ‘Movie Y’. Are Roberts’ reviews objectively better? Would Joe Blow at the grocery store, who only chooses his novels solely on cover art think so?

I think it’s easy to see if a review is to be taken in consideration or not. There are lots of people on amazon or at goodreads that write reviews, others just write opinions. If you read: “Great book. Solid characters and the author really developed a new world or described the Victorian times perfectly.” Or like sometimes I read “Terrible choice. I really didn’t get the book at all.” It is clear which review I will take in consideration. And also I’ve read some great titles, which were chosen by the cover art. It is also the main reason why I haven’t read yet “A game of thrones” by George R. R. Martin.

13. Given the choice, would you take a paid review or column for an online or print publication, or a Book Blogger Appreciation Week award? Why, exactly?

If I was invited, why not. After four years of analyzing books since “Das Nibelungenlied” until Morrison’s “Song of Solomon” I don’t think I would do a poor job. It is a passion for me to write, whether reviews or fiction.

As repostas estão em inglês, mas penso que ninguém terá dificuldades.
Impressões sobre “The Night watch”

Página: 253/512

Após as minhas divagações por literatura feminista aliada ao romance histórico, “The Night Watch” visava ser uma promessa boa de tudo o que eu queria ler: lésbicas dos anos 40. Criamos expectativas, lemos a sinopse e não podemos deixar-nos indiferente a personagens estilo Kay, que no meu imaginário seria uma pseudo-Annemarie Schwarzenbach, cujas marcas da guerra reflectem-se no futuro (sendo o primeiro capítulo o ano de 1947). Helen e Julia são o casal discreto lésbico com os seus problemas comuns. Viv é a única personagem heterossexual que mantém um relacionamento com um soldado casado, mas que tem muito pouco que se lhe diga. No meio de tanta banalidade existe duas personagens masculinas Duncan e Fraiser, Duncan saiu da prisão por um crime que é basicamente o mistério da novela e Fraiser, um homem, cuja função é um tanto duvidosa. Apesar de as críticas serem maioritariamente positivas chegamos a meio do livro sem nada para dizer sobre a obra. O livro é demasiado grande, muito bem escrito, muito bem pesquisado, mas que peca pela falta de acção e que leva o leitor a pensar porque é que demora tanto tempo a ler um livro tão bom.

Uma leitura que fica a meio, mas que será retomada em breve.