Thursday, 26 August 2010

Uma espécie de prólogo

Uma espécie de prólogo
“Orbias: O demónio branco”
Fábio Ventura

As editoras já começaram a anunciar as novidades para a rentreé literária, a Casa das Letras já anunciou dois livros novos na área da fantasia: para dar segmento aos vampiros Na Sombra do Pecado de J. R. Ward e do autor português Fábio Ventura - Orbias: O demónio branco. O autor para não desiludir os fãs e para não cair no esquecimento lançou uma série de contos com as personagens principais no mundo Orbias. A menos de um mês do lançamento do segundo volume, Fábio Ventura lança o ultimo conto desta vez focando-se em Noemi.

Penso que o conto encerra em si o melhor e o pior da escrita do autor, se por um lado tem cenas boas surrealistas, existem alguns erros a ter em atenção e a combater. O desequilíbrio entre o coloquialismo e o poético continua a ser demasiado evidenciada “Tendo uma pele tão branca, seria de se esperar que, mesmo com protector solar de grau 50, o terrível Sol de Julho me fustigasse com os seus chicotes de fogo, como um diabo.”. Surpreendente a relação que o autor estabelece com o livro “Twilight” sem se dar conta. Apesar de as situações serem diferentes, tanto Bella como Noemi ficam deprimidas porque o namorado morre. (apesar do Edward já estar morto) Existe uma certa tendência para um exagero emocional por parte das duas personagens, mesmo com Noemi a não gostar das reacções da Bella. “A história era interessante. Mas a relação dos protagonistas estava a enervar-me bastante. Parecia tudo tão complicado, tão dramático e elaborado! Se as duas personagens soubessem o quão imaturas eram em não assumir de uma vez a relação, sem dramas ou tamanha lamechice.”

O uso de uma narradora autodiegética apesar de falível, serve para ajudar o leitor a identificar-se ou aproximar-se da personagem, porém não devemos cair no exagero de descrever tudo o que a personagem tem ou sente minha vida. “Vesti rapidamente uma T-Shirt branca, umas calças pretas e calcei as All Stars.”, “Escolhi o Break The Cycle dos Staind e deixo-me invadir pela sonoridade melancólica daquelas canções.” ou “Estava de chapéu e com uns óculos de Sol que me cobriam quase toda a cara.” Pessoalmente penso que é preciso ter cuidado para não cair em tentação de transformar uma descrição numa passarela. As roupas devem servir dois propósitos: se possuem simbolismos ou se são relevantes para a economia da história. O autor corre o risco de dirigir informações demasiado quotidianas balançando entre o juvenil e o jovem. Por fim devo mencionar alguns clichés neutros: estações de serviço que fazem parte do imaginário “à la americana”, o carro que explode do nada e o facto de no fim tudo não passar de um sonho.

O fim lembrou-me um pouco as composições que ás vezes fazemos que quando não sabemos como explicar as coisas, seguimos pelo caminho mais fácil. Mesmo assim as cenas surrealistas estão muito bem conseguidas e acho que o autor deverá olhar para as partes boas e apostar numa vertente que nota-se que domina.

Link para o conto: https://docs.google.com/fileview?id=0Bx_xMp10iaEuYmM4ZDIzOGItYzU0My00MDBkLTgxOGMtNDJhYTAzMWVjNjIy&hl=pt_PT&authkey=CNGdx9gL

Tuesday, 24 August 2010

Avalon

Avalon
Anya Seton
Género: Romance histórico
Páginas: 440
Editora: Boston : Houghton Mifflin Company
Edição: 1965


Pegar num livro sem saber o que lhe espera pode sempre dar para o torto, como podemos ter uma agradável surpresa. Avalon foi lido apenas com o conhecimento de que Anya Seton foi uma das melhores escritoras de romances históricos e que o título relembra o famoso “Mists of Avalon”. As datas são porém bastantes distantes: Avalon de Anya Seton fora publicado na década de 60 e “Mists of Avalon” fora publicado na década de 80. As semelhanças entre as duas obras começam e acabam precisamente no título.
Avalon conta a história de Rumon, primo do rei Edgar que parte numa demanda em busca da ilha mítica de Avalon e pelo caminho encontra Merewyn, uma jovem com sangue viking, fruto de uma violação. Sendo a mãe da jovem casada com Uther, um homem com sangue arturiano, Merewyn cresce sem saber das suas origens. Às portas da morte, a mãe de Merewyn faz Rumon prometer que nunca ninguém saberá da paternidade da filha e que a levará em segurança até ao convento onde se encontra a sua tia. Assim começa a segunda demanda de Rumon e a primeira de muita de Merewyn. Avalon prima por ser uma espécie de novela épica, com muitas demandas, viagens e missões nem sempre bem sucedidas, mas que levam-nos a sonhar com os épicos medievais. Intrigas políticas, religião e ainda com espaço para questionar um pouco mais além o papel da mulher, a mestria de Seton não para de surpreender à medida que o leitor fica cada vez mais emaranhado nas suas palavras e nos acontecimentos. A demanda por Avalon é a demanda pelo passado glorioso do tempo de Arthur, a demanda por uma ilha que não faz parte deste mundo. Rumon ruma em direcção ao desconhecido e ao fantástico esperançado em alcançar algo inatingível. Avalon é sobretudo uma busca especialmente espiritual, uma forma de atingir a paz e o absoluto. No fim Avalon só poderá ser descoberta na morte.

Thursday, 19 August 2010

A Musa de Camões

A Musa de Camões
Maria Helena Ventura
Género: Romance Histórico
Páginas: 256
Editora: Saída de Emergência

"A história de um amor único e impossível, que aos olhos da lei era crime e aos da Inquisição era pecado."


Maria Helena Ventura tem quatro livros de romance histórico publicados: Afonso, o Conquistador, Onde Vais Isabel?, A musa de Camões e o último “Um Homem Só”. Com tantos títulos num género cada vez mais popular em Portugal é raro ver uma review dos livros desta escritora portuguesa. Indignada decidi aproveitar a excelente promoção no site da Saída de Emergência para me estrear nos romances históricos e encontrar a razão pelo qual se encontram tão poucas reviews na Internet. O motivo é fácil de descobrir, com um título bonito, uma capa medieval e uma sinopse bem escrita, aumenta a exigência por parte dos leitores face à história. Basicamente o que o leitor espera uma história de amor arrebatadora, um amor proibido e um destino fatal. De facto Helena Ventura escreve sobre estes temas, contudo o distanciamento do narrador e a falta de diálogos afasta de imediato o leitor ansioso por uma história de amor. A Musa de Camões é por vezes uma lição de história dada por uma professora que fez uma pesquisa exaustiva sobre uma Infanta desconhecida, aliando a vida atribulada do grande poeta português com o amor proibido. A prosa é complexa, bela, mas fria e distante. Os acontecimentos são vistos a partir de fora, a visão é falível, raramente seguimos os sentimentos dos dois amantes e para piorar a proximidade para com as duas personagens principais, os diálogos são distantes. Camões e a Infanta não se beijam, não lutam pelo seu amor e pior resignam-se ao seu destino manobrado pela Inquisição. Resta a insensibilidade por parte do receptor para com as personagens, que por vezes chega a duvidar que as duas personagens sentem realmente algo. Apesar de falhas é um livro bem escrito, com passagens belíssimas e que vale a pena ser lido. Resta-me aconselhar aos futuros leitores para serem pacientes e insistirem na leitura. Espero ler “Onde vais Isabel?” pelo menos antes do Natal.

Briar Rose

Briar Rose (Sleeping Beauty)
Anne Sexton




Requesitei o livro de não-ficção “Don’t Bet on The Prince” de Jack Zipes apenas como fonte de pesquisa para o conto que está em produção. Como tive o privilégio de estudar Angela Carter e apaixonei-me pelos contos de fadas feministas, decidi requisitar o livro e proceder com mais algum estudo. Acontece que “Slepping Beauty” é o meu conto favorito e não ia deixar de ler esta adaptação breve de Anne Sexton.


Consider
a girl who keeps slipping off,
arms limp as old carrots,
into the hypnotist's trance,
into a spirit world
speaking with the gift of tongues.
She is stuck in the time machine,
suddenly two years old sucking her thumb,
as inward as a snail,
learning to talk again.
She's on a voyage.
She is swimming further and further back,
up like a salmon,
struggling into her mother's pocketbook.
Little doll child,
come here to Papa.
Sit on my knee.
I have kisses for the back of your neck.
A penny for your thoughts, Princess.
I will hunt them like an emerald.

Come be my snooky
and I will give you a root.
That kind of voyage,
rank as a honeysuckle.
Once
a king had a christening
for his daughter Briar Rose
and because he had only twelve gold plates
he asked only twelve fairies
to the grand event.
The thirteenth fairy,
her fingers as long and thing as straws,
her eyes burnt by cigarettes,
her uterus an empty teacup,
arrived with an evil gift.
She made this prophecy:
The princess shall prick herself
on a spinning wheel in her fifteenth year
and then fall down dead.
Kaputt!
The court fell silent.
The king looked like Munch's Scream
Fairies' prophecies,
in times like those,
held water.
However the twelfth fairy
had a certain kind of eraser
and thus she mitigated the curse
changing that death
into a hundred-year sleep.

The king ordered every spinning wheel
exterminated and exorcised.
Briar Rose grew to be a goddess
and each night the king
bit the hem of her gown
to keep her safe.
He fastened the moon up
with a safety pin
to give her perpetual light
He forced every male in the court
to scour his tongue with Bab-o
lest they poison the air she dwelt in.
Thus she dwelt in his odor.
Rank as honeysuckle.

On her fifteenth birthday
she pricked her finger
on a charred spinning wheel
and the clocks stopped.
Yes indeed. She went to sleep.
The king and queen went to sleep,
the courtiers, the flies on the wall.
The fire in the hearth grew still
and the roast meat stopped crackling.
The trees turned into metal
and the dog became china.
They all lay in a trance,
each a catatonic
stuck in a time machine.
Even the frogs were zombies.
Only a bunch of briar roses grew
forming a great wall of tacks
around the castle.
Many princes
tried to get through the brambles
for they had heard much of Briar Rose
but they had not scoured their tongues
so they were held by the thorns
and thus were crucified.
In due time
a hundred years passed
and a prince got through.
The briars parted as if for Moses
and the prince found the tableau intact.
He kissed Briar Rose
and she woke up crying:
Daddy! Daddy!
Presto! She's out of prison!
She married the prince
and all went well
except for the fear -
the fear of sleep.

Briar Rose
was an insomniac...
She could not nap
or lie in sleep
without the court chemist
mixing her some knock-out drops
and never in the prince's presence.
If if is to come, she said,
sleep must take me unawares
while I am laughing or dancing
so that I do not know that brutal place
where I lie down with cattle prods,
the hole in my cheek open.
Further, I must not dream
for when I do I see the table set
and a faltering crone at my place,
her eyes burnt by cigarettes
as she eats betrayal like a slice of meat.

I must not sleep
for while I'm asleep I'm ninety
and think I'm dying.
Death rattles in my throat
like a marble.
I wear tubes like earrings.
I lie as still as a bar of iron.
You can stick a needle
through my kneecap and I won't flinch.
I'm all shot up with Novocain.
This trance girl
is yours to do with.
You could lay her in a grave,
an awful package,
and shovel dirt on her face
and she'd never call back: Hello there!
But if you kissed her on the mouth
her eyes would spring open
and she'd call out: Daddy! Daddy!
Presto!
She's out of prison.

There was a theft.
That much I am told.
I was abandoned.
That much I know.
I was forced backward.
I was forced forward.
I was passed hand to hand
like a bowl of fruit.
Each night I am nailed into place
and forget who I am.
Daddy?
That's another kind of prison.
It's not the prince at all,
but my father
drunkeningly bends over my bed,
circling the abyss like a shark,
my father thick upon me
like some sleeping jellyfish.
What voyage is this, little girl?
This coming out of prison?
God help -
this life after death?


O poema e toda a sua complexidade reside na dualidade das situações, nomeadamente a primeira parte dedicada a contar a história tradicional da Bela Adormecida e na segunda a história de uma menina abusada sexualmente pelo pai. “Don’t bet on the prince” dedica-se a isso mesmo, na descrença por parte das princesas num príncipe que é tudo menos encantado. Numa perspectiva feminista o conto de Briar Rose (outro nome para “Sleeping Beauty”) não é nada mais do que uma manifestação do estado vegetativo da mulher, obrigada a um estado dormente por parte da sociedade. A mulher dorme profundamente à espera que um homem a beije para acordar e aceitar o seu lugar como esposa na sociedade. A mulher só poderá servir um propósito: casar. Assim sendo a mulher tem de esperar muda para conhecer o homem que muito provavelmente não será um príncipe encantado.

Convém também acrescentar que Briar Rose consegue embutir em si três versões: sendo a primeira uma referência Prünhilt de “Das Nibelungenlied”, uma Valquíria encerrada numa torre adormecida à espera que o grande guerreiro Siegfrid a acorde do seu castigo.

A esta história mais tarde aproveitam o essencial para construir o conto da Bela Adormecida, uma princesa amaldiçoada por uma bruxa, condenando-a à morte. A princesa é salva por uma fada, que com os seus poderes revela que a princesa não morrerá, mas cairá num sono profundo e somente o verdadeiro amor a salvará. Quando a princesa toca no fuso todos no castelo caem num sono profundo durante cem anos. Se o beijo do seu príncipe a acorda do feitiço lançado pela bruxa, a princesa terá de enfrentar a sogra, uma terrível ogre que quer comer a princesa e os seus netos.

A terceira versão é a do poema, contada por Anne Sexton, de uma criança abusada pelo pai bêbado “I was forced backward. I was forced forward.” A rapariga não quer dormir, tal como a Bela Adormecida que desenvolve insónias após ser liberta da maldição. Dormir implica não estar alerta, estar indefesa e propícia a ser abusada mais uma vez, por outro lado estar acordada implica libertar-se dos sonhos dos príncipes encantados e enfrentar a realidade onde o príncipe não existe.

Lightspeed Magazine


THE ZEPPELIN CONDUCTORS' SOCIETY ANNUAL GENTLEMEN’S’ BALL




Um conto breve do subgénero “Steampunk” que muitas dores de cabeça me deu aquando a leitura do “Leviathan” de Scott Westerfeld. Decidida a não desistir da luta contra a literatura “Steampunk” visto ter todos os ingredientes para se tornar um dos meus géneros favoritos, peguei neste conto de Genevive Valentine, que pode ser lido na revista online “Lightspeed Magazine”. Um conto com altos e baixos devido ao espaço limitado disponível, que não deixa de trespassar uma certa beleza através da maquinaria. Ao contrário do “Leviathan” este conto parece mais maduro e melhor escrito. O facto de Valentine pegar numa classe, os condutores de Zeppelins, e percorre o dia-a-dia de um condutor, na qual é descrita a adoração pela altitude, pelo céu, cientes dos riscos que a profissão envolve. As máscaras de protecção que já não são de metal, mas de plástico para “melhor segurança” dos trabalhadores. O conto beneficia de partes esquisitas, atrapalhando o leitor quando este estava bem embalado na história.

“Then Captain Marks shoved the woman into the balloon.
She was wearing a worn-out orange dress, and a worn-out shawl that fell away from her at once, and even as the captain clipped her to the line she hung limp, worn-out all over. He’d been at her for a while.
I still don’t know where he found her, what they did to her, what she thought in the first moments as they carried her towards the balloon.
“Got some leftovers for you,” the Captain shouted through his mask, “a little Gentlemen’s Ball for you brave boys. Enjoy!”
Then he was gone, spinning the lock shut behind him, closing us in with her.
I could feel the others hooking onto a rib or a spine, pushing off, hurrying over. The men in the aft might not have even seen it happen. I never asked them. Didn’t want to know.”

A mudança de tom, de uma espécie de luta por direitos, para passar para um assassinato descrito de maneira tão desorganizada faz com que o leitor leia e releia até conseguir entender. Ainda assim gostei de ler. O conto deu-me esperança num subgénero que pensei que fosse falhar a entender por ser novo e tão diferente. Mesmo que não seja a leitura perfeita encoraja o leitor a descobrir novas obras de Steampunk.

O conto pode ser lido aqui: http://www.lightspeedmagazine.com/fiction/the-zeppelin-conductors-society-annual-gentlemens-ball/



I’M ALIVE, I LOVE, I’LL SEE YOU IN RENO






Um belíssimo conto de ficção científica da autora Vylar Kaftan, que mistura uma história de amor com as leis da física. Numa época onde a Esperança Média de Vida é de 150 anos, acompanhamos uma relação entre a personagem e o amado, com os seus problemas na relação influenciada pela física, mas com problemas reais. “I knew you loved me, of course. It was written in your eyes when you looked at me, a physics problem with no clear answer. If an irresistible force meets an immovable object, what happens then?” Estar numa relação implica estar preso a alguém, para alcançar a liberdade é imperativo o divórcio, mas o que fazer quando as leis da atracção falam mais alto? Quando a separação acontece, qual a velocidade necessária para os dois colidirem?

If I’m a train leaving Philadelphia at 3:00, going 50 miles an hour, and you’re a train on the same track leaving San Francisco at 4:00, going 55 miles an hour, at what time will we collide and run each other off the tracks?

More importantly, if we move at the speed of light, and I shine a light in your direction, will you blink and tell me to stop blinding you, or will you not see me coming until it’s too late?
If Einstein is flying next to our train, looking into a mirror and wondering where his reflection has gone—will you ask him whether anything stands still, or if everything is always in motion? Relative to everything else, of course.


And ask about Reno. If our trains crash there, should we consider that they’ve stopped moving? Or are they still in motion on Earth, relative to everything else in the universe?

Romântico, dinâmico, versátil, a ciência é usada com mestria de uma forma poética , iluminando o leitor gentilmente, sem grandes exibicionismos científicos, apenas as leis que todos conhecemos e pelas quais já passamos.

O conto pode ser lido aqui: http://www.lightspeedmagazine.com/fiction/im-alive-i-love-you/

Imagem: http://dezzan.deviantart.com/

Monday, 16 August 2010

Sobre os livros de bolso portugueses

Quando ligamos a televisão é usual ouvirmos a palavra CRISE mais do que uma vez, por vezes no mesmo segmento de notícia, contudo cada vez que vamos à FNAC, Bertrand ou até à livraria nota que a palavra crise não se faz sentir. Com edições a ultrapassar os 20€ os portugueses quase tanga, se querem ler têm de optar pelas edições de bolso, ou simplesmente riscam das despesas a cultura. As edições de bolso têm vindo a aparecer timidamente na vida dos portugueses, sem muito sucesso. Provavelmente a causa maior será o facto de as edições de bolso serem maioritariamente dedicadas a clássicos, de modo a não haver direitos de autor e em alguns casos nem ser preciso tradutor. Decidi então pegar em quatro editoras e colecções respectivas de bolso e comparar os prós e os contras de cada, para no fim comparar com uma edição inglesa.



A editora que pode-se gabar de possuir mais livros de bolso no mercado é a Europa-América. Com mais de mil títulos publicados em vários géneros, estes livros têm sobrevivido aos tempos, e embora o preço não seja completamente desproporcionado, se tivermos em conta as traduções horríveis, mais do que cinco euros parece um preço elevado. Ainda assim existem livros editados somente pela chancela da Europa-América, que permanecem sem tradução decente.


Uma das minhas colecções de bolso favoritas, a Bis/Leya, pode-se gabar de uma mistura agradável de títulos clássicos e recentes, cujo preço não ultrapassa os 10€. Um facto importante a ter em conta quando pensamos em livros de bolso é barato e fácil de transportar e a colecção de bolso da Bis/ Leya possui essas duas qualidades. O único senão é a escassez de títulos que a colecção ainda dispõe.


A nível de preço a colecção da Biblioteca Editores Independentes será a mais justa. Livros, cujo preço mínimo rondam os 4€ são de facto uma boa oportunidade e terá à sua disposição clássicos com formato semelhante à colecção Bis/Leya. Contudo alguns títulos encontram-se divididos, e se virmos bem acaba por não compensar comprar estes títulos divididos. Ainda assim consegue competir com as publicações da Europa-América a nível de clássicos.


Por último temos a colecção de livros de bolso 11X17, uma colecção fresca, com capas atractivas, títulos recentes tal como Nora Roberts, Anne Bishop, Juliet Marillier e Stephen King. Ideal para quem quer experimentar um autor e não quer arriscar a pagar normalmente 18€, pode pagar só 10€ e poupa dinheiro. A colecção por muito inovadora que seja é a que apresenta mais falhas, primeiro o próprio tamanho é despropositado. O facto de se chamar livro de bolso não implica que o livro tenha de caber no bolso ou na mais pequena carteira. O facto de ter este tamanho só contribui para que os títulos tenham mais páginas que as edições normais, o que torna o livro mais pesado e desconfortável. Os preços chegam aos 12€ por vezes com livros divididos em dois, fazendo com que o leitor tenha de gastar 20€ para ler um livro cuja qualidade devia de ser barata. Podemos ter em conta o livro “Mary, called Madgalene” traduzido para português como “A Paixão de Maria Madalena” de Margaret George.

O livro em inglês poderá ser adquirido por 8€ e tem quase 900 páginas, a colecção 11X17 cortou o livro sendo que a primeira parte tem 544 páginas e a segunda 480. Como cada livro custa 10€ a leitura deste livro ficará por 20€. A pergunta que se coloca é fácil: porquê cortar o livro a meio? Render o peixe? Livros de bolso não servem para fazer render o peixe, mas sim para tornar a leitura acessível a todos. Mesmo com estes contras a colecção de livros 11X17 pode vir a evoluir e a dar que falar.


Para concluir gostaria de apresentar uma pesquisa rápida pela internet com duas situações semelhantes. Muitos livros de bolso são traduções, visto que existem imensos clássicos universais em inglês ou até francês, pensando nisso decidi pegar num grande autor de língua inglesa: William Shakespeare e num grande autor de língua portuguesa Fernando Pessoa e comparar as suas obras em livros de bolso.


Com William Shakespeare não é preciso ser-se muito criativo, basta pegar na sua peça mais conhecida “Romeo and Juliet” e pesquisar os preços nas duas maiores colecções de bolso: Wordsworth e Penguin. Já com Fernando Pessoa escolhi a sua obra “Mensagem” e peguei nas colecções de bolso: 11X17 e Biblioteca Editores Independentes. Os resultados ficam em jeito de conclusão para quem ler isto reflicta nos anos que ainda temos de trabalhar para que a cultura seja mesmo acessível a todos.

Romeo and Juliet
William Shakespeare
Wordsworth Classics: 160 páginas - 2€25
Penguin Classics: 160 páginas - 2€27


















Mensagem
Fernando Pessoa
Colecção 11X17: 100 páginas - 6€06
Colecção Biblioteca Editores Independentes: 96 páginas - 4€04


Tuesday, 10 August 2010

Sangue-do-coração

Sangue-do-coração (Heart’s Blood)
Juliet Marillier
Tradutor: Maria Teixeira Pinto
Género: Fantasia/ Contos de fadas
Páginas 400
Editora: Bertrand Editores

Há sempre algo de mágico no mundo de Marillier, algo que não sabemos o que é, um segredo guardado a sete chaves, que só a autora possuiu, para nos presentear de vez em quando com livros tão bonitos que mexem connosco. Sangue-do-coração é um livro que para fãs de Marillier não será provavelmente nada de novo, quem lê a sinopse sabe muito bem como irá acabar a história, tal e qual como um conto de fadas. Sabemos a história de cor, mas isso não evita que relemos a mesma velha história, Coração-do-sangue faz parte desse grupo restricto de histórias que apesar de sabermos como acaba queremos ler mais, queremos saber como a história desenvolve, o importante não é o fim, mas sim o que se passa entretanto. Existe em alguns livros de Marillier, e Sangue-do-coração é um deles, um paralelismo estranho com Hemingway. Ambos conseguem atirar o leitor para situações de desespero, quando pensamos que tudo irá acabar mal, Marillier consegue resuscitar o leitor através da esperança, contudo Hemingway simplesmente deixa o leitor estatelado no chão esmagado e aniquilado através da realidade. O mundo de Marillier está repleto de esperança, de luta e de força interior, as relações pessoais são desenvolvidas ao extremo até o leitor se deixar entrelaçar na sua teia de palavras e jogos mentais. Marillier escusa de desenvolver as personagens, o leitor sem se dar conta é levado pelas inseguranças e pelos pensamentos, pelo que não é dito, mas pensado, pelo que as personagens nem sequer pensam, mas o leitor adivinha o futuro, o leitor sabe o que as personagens vão fazer, mesmo antes de elas o saberem. Se um livro de Juliet Marillier tivesse o mesmo fim que um livro de Hemingway, o comum dos leitores não iria gostar de ler os seus livros. A realidade é dura, mas a fantasia faz-nos sonhar. Caitrin é uma mulher escriba, uma mulher intelectual, que sofre de o que hoje em dia chamaríamos de “violência doméstica” e que consegue fugir e encontrar refúgio nos braços de um Chefe Tribal aleijado e amaldiçoado. Enquanto encontramos paralelismos com o conto “Bela e o Monstro”, encontramos também alguns com a obra “Jane Eyre”. Anluan é um homem aleijado que precisa de apoio dos seus amigos, mas também de uma mulher que o entenda e lhe dê forças, elevando-o à figura de Rochester, um homem que fica cego e dependente da mulher. Ao contrário da vida que levava em sua casa, Caitrin consegue ser útil e aprende a completar o lado vazio de Anluan. Juliet Marillier consegue estabelecer um nível intermédio nas relações entre homens e mulheres, sem esquecer o lugar da mulher na sociedade, mas também sem exagerar nas críticas aos homens (que Marion Zimmer Bradley cultivava). Coração-do-sangue é um livro para ler depressa, incansavelmente, sempre com o coração nas mãos, à espera de um desfecho típico dos contos de fadas.

Saturday, 7 August 2010

Filha do Sangue

Filha do Sangue
Jóias Negras I
Anne Bishop
Tradução: Cristina Correia
Género: Fantasia
Páginas: 384
Editora: Saída de Emergência

Atribuir notas está-se a tornar cada vez mais uma tarefa ingrata para com as obras que tenho lido. Quando acabei de ler “Filha de Sangue” não sabia que nota dar. Após várias opiniões favoráveis decidi dar uma chance ao livro e até meio a história desiludiu-me.

Inicialmente a história parece levar-nos por um livro dominado por mulheres, onde podemos, por momentos, pensar que se tratará de uma utopia feminista, onde as mulheres lideram os homens, no entanto quando mais se lê só existe uma palavra que define quase todas as mulheres adultas “cabras” (em inglês seria “bitches”) . A maioria das mulheres são pessoas horríveis, que conseguem dominar os homens a partir do seu “anel de obediência” que está atado ao orgão genital, o que mudou de repente a visão do mundo de utopia a distopia. Este primeiro volume parece-se com uma espécie de preliminares, que simplesmente lucra através de possíveis ameaças, que o leitor por vezes falha em compreender.

Sem as descrições fornecidas pela autora, as personagens parecem por vezes ocas nos seus discursos. Daemon é poderoso, terrível, contudo as suas acções para com Janelle são sempre as mais amáveis e nem de longe se parece com alguém temível. Em certos aspectos lembra Heathcliff de “Wuthering Heights” sem a mestria de Emily Brontë. Os temas são sem duvida o ponto forte: pedofilia, perda da virgindade, a autora consegue desenvolver temas relacionados com o sexo de uma forma agradável, por vezes sem pensar nas consequências que terá Daemon beijar na boca uma rapariga de doze anos.

Um livro com altos e baixos, mas que deixa uma premissa boa para um segundo volume, que será adquirido através dos livros de bolso 11x17.

Sunday, 1 August 2010

Beowulf & Shakespeare

Beowulf
Anónimo
Tradução do Old English: Charles W. Kennedy
Género: Poema épico
Páginas: 121 (poema só tem 99 páginas)
Editora: Oxford University Press



(classificação em comparação aos Nibelungos)

Todos conhecem a história do Beowulf, tal como “Das Nibelungenlied” é quase impossível não saber da história de Siegfried e Kriemhilt ou de Beowulf e Grendel, nem que seja devido às recentes adaptações para o cinema. No entanto das pessoas que conhecem as lendas apenas 5% devem ter lido estes dois poemas épicos, à custa de uma licenciatura em Literatura Inglesa. Ao contrário do poema medieval alemão “Nibelungenlied”, que conta a história do declínio de um povo inteiro, “Beowulf” conta apenas a história deste herói oriundo de Geats (Suécia) que viaja até à Dinamarca para ajudar o rei Hrothgar a matar o monstro Grendel, mais tarde consegue também destruir a sua mãe, descrita como uma troll, embora sem nome próprio. Estudos recentes apontam para que talvez a mãe de Grendel, signifique uma valquíria ou uma mulher guerreira.

O poema é marcado pelas sucessivas batalhas que Beowulf terá de superar: Grendel, mãe de Grendel e por fim um dragão e pelos funerais que se seguem. Ao longo do poema valores e comportamentos sociais manifestamente alemães, como lealdade, moral e honra. Quase no fim da sua vida, Beowulf depara-se com uma divisão moral para com o seu comportamento: deverá ele lutar contra o dragão e arriscar a sua coroa, sem herdeiro directo ou deverá, como bom rei esperar por um outro herói para cumprir essa função? A resposta reside na memória. Se Beowulf ficar quieto, o seu nome poderá arriscar a ser apagado das lendas, por outro lado se arriscar e morrer, essa morte deverá ser lamentada e cantada, entranhando-se na memória da Humanidade e não deixar que a morte do rei seja em vão.

Um poema épico maravilhoso, mas que se compararmos com “Das Nibelungenlied” fica a perder.
Não existe tradução para português (de Portugal). Tenho quase a certeza que existe em Brasileiro, tal como os Nibelungos, cuja única tradução para português, é Português do Brasil.




The Tempest
William Shakespeare
Género: Drama/ Comédia
Páginas: 126 (das quais 98 são a peça em si)
Editora: Wordsworth Classics



Uma peça tardia de Shakespeare que aborda temas como colonialismo, escravatura, onde não se dá tanta atenção à fantasia e ao papel das mulheres. Prospero, duque de Milão foi alvo de traição por parte do seu irmão, levado para uma ilha com a sua filha pequena. Passados anos Prospero consegue com a ajuda de Ariel, um espírito assexuado criar um naufrágio para os causadores do seu infortúnio ficarem loucos naquela ilha. Uma peça longe da perfeição e uma das mais fraquitas a nível de diálogos, mesmo assim ainda tem força suficiente para andar das pernas. Desde as falhas no sistema jurídico, à clara divisão entre homens e monstros e senhores e servos, Shakespeare consegue com algum humor engrenar uma peça boa de vingança, onde o amor também consegue ocupar espaço.